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MANTEIGA DE TARTARUGA |
| O doutor
Kidder escreve: "A manteiga de tartaruga do Amazonas é uma substância
inteiramente peculiar a essa região do globo. Em certas estações do
ano, as tartarugas aparecem aos milhares nas barrancas dos rios, a fim
de depositarem os seus ovos na areia. O ruído de suas cascas, umas
contra as outras, é ouvido à longa distância, segundo afirmam
alguns. Esse trabalho começa na vazante e termina na enchente
seguinte, quando elas se retiram d’água. Durante o dia, os habitantes recolhem esses ovos e os empilham como balas de canhão vistas no passadiço dos navios. Esses ovos têm, às vezes, vinte pés de diâmetro, e uma altura correspondente; quando ainda frescos, são levados por canoas de madeira, ou por grandes embarcações, quebrados a pau e esmagados com os pés. Joga-se, então, água em cima deles, e tudo é exposto aos raios do sol. O calor traz a substância gordurosa dos ovos para a superfície e é então recolhida em cuias e conchas. depois disso, a gordura é sujeita a um calor moderado, até que fique pronta para ser usada. Quando clarificada, tem o aspecto de manteiga derretida. Conserva sempre o gosto de óleo de peixe, mas é muito estimada como condimento pelos índios e por aqueles que se habituaram a usá-la. É mandada ao mercado em vasilhas de barro. Outrora, avaliava-se que cerca de 250.000.000 de ovos de tartaruga eram anualmente destruídos para a preparação dessa manteiga. Recentemente, o número é menor, devido à destruição gradativa feita contra a raça das tartarugas pelo avançar da civilização." O governo agora, porém, regulamenta a pesca dos ovos de tartaruga, a fim de que a sua quantidade não diminua tão rapidamente. Há grandes praias que fornecem cerca de 2.000 potes de óleo anualmente: - cada pote contém cinco galões, e exige cerca de 2.500 ovos, o que perfaz 5.000.000 de ovos destruídos em cada localidade. Na verdade, é de admirar como as tartarugas possam chegar à maturidade. Quando saem dos ovos, e põe-se a caminhar n’água, muitos são os inimigos que estão espreitando. Enormes crocodilos engolem-nas às centenas, os jaguares dela se alimentam, as águias, os gaviões e os grandes "Ibis" da floresta são seus devoradores. E quando escapam desses inimigos terrestres, muitos são os peixes carnívoros que estão prontos para agarrá-las na própria corrente do rio. São as tartarugas, no entanto, tão prolíferas, que ainda sobram para o seu mais fatal inimigo, que é o homem, que visivelmente tudo faz para diminuir o número delas. Os índios apanham a tartaruga adulta num cesto, aprisionam-na com uma vara, ou, então, atiram nela com a flecha. Este último é um processo engenosíssimo que exige mais habilidade do que atirar num pássaro voando. A tartaruga nunca mostra acima d’água a sua parte posterior, porém, subindo para respirar, as suas narinas apenas ficam fora da superfície da água; tão rápido, porém, é esse gesto, que somente os índios habilidosos o podem perceber. A seta arremessada obliquamente, pode, entretanto, alcançar a parte mais macia do casco; por isso, os índios apontam para o ar, parecendo que atiram a seta por acaso, mas, no entanto, enviam o seu projétil com tão maravilhosa perícia, que a flecha descreve uma parábola, e cai quase que verticalmente sobre a parte traseira da tartaruga. (Wallace). A extremidade da seta está frouxamente amarrada à embarcação, por uma longa corda cuidadosamente enrolada na madeira do arco, de modo que, quando a tartaruga mergulha, a ponta da seta desce, a corda se entesa e a leve embarcação forma um corpo flutuante que bóia sobre as águas, que o índio sustenta e, com a corda puxa a presa para a sua canoa. Quase todas a tartarugas, que se vendem no mercado, são pescadas por esse sistema, e o pequeno orifício quadrado e vertical, feito pela ponta da flecha, pode ser visto geralmente no casco. Nesse assunto ainda, pode-se mencionar, a arte de flechar de alguns índios civilizados e várias regiões do império. Encurvam com as pernas um arco de grandes dimensões e potência e, desse modo, são capazes de caçar a grandes distâncias. (KIDDER, Daniel Parish; FLETCHER, James Cooley. O Brasil e os brasileiros) |