Boi-Bumbá 
O ritual original
O ritual era assim: Catarina, que estava grávida, tem desejos. Deseja comer, de acordo
com a folgaça, a língua, o coração, o fígado, um órgão vital do boi mais bonito da
fazenda de seu patrão, (o Amo do Boi).
Com medo de que seu filho nasça com a boca torta, Pai Francisco realiza esse desejo de
Catirina e rouba o boi mais bonito, mata-o e se esconde. Pai Francisco é acusado,
procurado, perseguido e preso pelos vaqueiros. E termina por confessar seu crime.
No ritual, o Amo chama o Dr. veterinário, Dr. curador, Dr. da Cachaça (hoje, o
Pajé indígena, feiticeiro) para trazer o boi de volta. E se consegue reviver o boi.
O crime de Pai Francisco não deixou de existir: o boi está vivo. Seu urro é ouvido com
alegria e todos os participantes cantam, pulam, se confraternizam, porque mais uma vez o
boi venceu a morte. E assim, anos a fio, a brincadeira de Boi-Bumbá vem sendo a
razão de ser de muitos parintinenses.
O ritual do Boi-Bumbá retrata a forte miscigenação: o negro cativo, típico no nodeste
e que teve maior influência nesta brincadeira, revive suas festas, os rituais de sua
terra distante. O índio, também cativo, buscou no boi uma fuga para sua situação, e
nessa brincadeira incorporara suas características. O branco, pela situação de
dominante, entrou na brincadeira de gaiato e era satirizado pelos escravos.
Figuras centrais do Boi
Tradicionalmente, o Boi era formado por:
Um Amo, 2 Vaqueiros, 4 Índios, Caboclos, Pai Francisco, Mãe Catirina, Cazumbá,
Lamparineiros, Padre, Sacristão, Pajé, Feiticeiro, Dr. da Cachaça, Dr. do Trovão, Dr.
Curabem, Dr. Veterinário, 2 Rapazes, Tripa do Boi, Batuqueiros, D. Maria, a senhora da
fazenda, e o Negro Velho.
Hoje, os vaqueiros formam um grupo de 40 brincantes e os índios se tornaram tribos
inteiras.
A figura do Padre, Sacristão, Dr. da Cachaça desapareceram do Boi de Parintins, mas
permanecem nos Bois de Manaus. No Boi de Parintins, hoje ocupam destaque principal:
Pajé e Cunhã Poranga - representantes da cultura indígena, Amo do Boi, Rainha do
Folclore e Sinhazinha da Fazenda, representando o homem europeu Pai Francisco e Mãe
Catirina, representando o negro.
Ontem e hoje os bois apresentam e conservam quatro elementos distintos no
decorrer da folgaça folclórica: o falado, o cantado, o orquestrado e o representado.
Boi-bumbá: origens
A palavra Boi é usada tanto para o animal como para o grupo folclórico inteiro. Assim,
Boi Caprichoso é tanto o boi de pano, que brinca na arena, quanto o conjunto folclórico
inteiro: o boi de pano mais os vaqueiros, os músicos, as figuras, tribos e alegorias.
Originalmente, os bois eram confeccionados, com caixas de sabão e até de papelão e
cobertos com pano branco, preto, marrom ou estampado. Durante o
mês de junho, o Boi saía com seu Amo, o cantador de versos. No dia de São Marçal, o
boi era jogado dentro da fogueira como homenagem a este Santo e encerrava-se, assim, a
quadra junina.
O Boi de terreiro e o Boi doméstico eram bois simples. O Amo cantava os desafios ao som
de um maracá de lata, por ele mesmo ritmado. Os desafios eram versos que o Amo tirava
ridicularizando o Boi contrário.
Hoje, o Boi é feito de uma estrutura de madeira coberta com espuma e um pano de cetim.
Dentro dele, o tripa se movimenta, tentando simular os movimentos de um touro no campo.
O Boi de pano é uma das figuras mais esperadas e aclamadas durante a apresentação. A
entrada do Boi de pano, na arena, tem sobre o torcedor o mesmo efeito de um gol, durante
uma partida de futebol. A primeira entrada do Boi de pano na arena é sempre elaborada com
elementos de surpresa ou de grande beleza. Momentos como esse, de euforia e emoção
coletiva são dos fenômenos mais notáveis do Festival de Parintins. A própria beleza
plástica, visual do espetáculo é um ingrediente cujo objetivo é levar a esta comoção
coletiva. Assistir a uma apresentação na arena é experimentar descargas de adrenalina.
A festa atual tem elementos muito fortes da catarse buscada nos primeiros tempos do teatro
grego, quando tentava-se libertar as emoções do público através do espetáculo. É
preciso estar em Parintins para crer !
As roupas
O guarda roupa era pobre e inexpressivo. Para se dar início à brincadeira, sempre
houveram reuniões. Escolhia-se o padrinho, local de ensaio, Amo e outros detalhes. Havia
a farra do Boi pelo padrinho. As apresentações concentravam-se no terreiro dos ensaios
até a morte do Boi. Depois, essas apresentações passaram a ser mais domésticas, isto
é, o Boi dançava nas casas e no momento do Auto do Boi, quando o Pai Francisco,
tirava a língua para satisfazer o desejo de Catirina, esta língua era vendida ao dono da
casa e com o dinheiro arrecadado nas portas dos mais abastados se fazia a festa da
matança do boi.
As roupas hoje são principalmente de dois tipos: simples, lembrando o homem da Amazônia,
pescadores e caboclos, ou fantasias representando tribos indígenas.
Rainha do Folclore e Sinhazinha da Fazenda usam roupas mais elaboradas. Osvestidos são
confeccionados com produtos renováveis da natureza, dentre outros.

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