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AS DOZE NOITES |
| O povo brasileiro
celebra o nascimento de Cristo, não num único dia de dezembro, mas
durante um período que os folcloristas chamam de as doze noites
e que se conhece, nos países de língua portuguesa, como o ciclo da janeiras. Quase todos os folguedos populares têm a sua oportunidade de apresentação nesse período, que se estende do Natal ao dia dos Reis - jogos e sortes, danças e bailes, desfiles e espetáculos (autos), o teatrinho de bonecos (mamulengos). Ficam de fora a folia do Divino e as cavalhadas de mouros e cristãos do Paraná, de Minas Gerais, de Goiás e do Amapá (das danças de Santa Cruz e de São Gonçalo, os cabocolinhos do Nordeste (mas não os seus irmãos gêmeos, os caiapós mineiros e paulistas), afoxés e maracatus, o boi-bumbá da região Norte. E até mesmo folguedos ligados ao Carnaval têm as suas origens remotas nos do Natal, como os ranchos cariocas, versão profana dos ranchos de Reis da Bahia, que serviram de modelo estrutural às escolas-de-samba. O ambiente festivo em que transcorre a passagem do ano pode explicar esta concentração de folguedos durante as doze noites. Há, entretanto, como lembra Alexander Haggerty-Krappe, uma razão mais antiga, que remonta à era pagã. É que a Epifania (6 de janeiro) foi, até o século IV, o dia do Natal, só então recuado para 25 de dezembro, data do nascimento do Sol Invictus. Assim, o povo celebra o antigo e o novo Natal com uma lúdica que traz, não apenas a marca do passado, mas o sinal do presente e do futuro. Vêm dos mistères e dos miracles do teatro religioso medieval os bailes pastoris. Escritos por anônimos beletristas, foram a princípio representados como autos sagrados, no adro, se não no interior dos templos católicos, como chegou a ocorrer e Pernambuco. São, agora, uma representação a bem dizer familiar, sobretudo na Bahia. Os bailes das Quatro Artes, da Graça Eficaz, do Filho Pródigo, entre outros recenseados por Melo Morais Filho, e os da Vizinha e da Horteleira, lembrados por Manuel Querino, apresentam uma trama simples, e mesmo ingênua, que termina pela chegada de alguém que traz a alvissareira notícia do nascimento de Cristo, com o que todo o elenco põe de lado as suas divergências para, em uníssono, conclamar a platéia a fazer peregrinação sagrada para adorá-lo. Dois desses autos se estabilizaram, na forma que haviam assumido no século passado, em Alagoas (o Presépio) e em Pernambuco (o presepe reconstituído pelos irmãos Valença), em que um grupo de pastoras, nas vizinhanças de Belém, derrota Lusbel. Os Pastoris, de origem semi-erudita, deram dois rebentos populares - as pastorinhas, ainda vivas na Guanabara e no Pará, e os pastoris de jornadas soltas do Nordeste. Umas e outros, como os bailes, chamam os espectadores a Belém, para onde, supostamente, se dirigem. São crianças e adolescentes os componentes das pastorinhas. Figuram anjos e pastores, estrelas, as estações, as virtudes, as flores, a Terra, o Sol e a Lua, a noite, e em geral gente humilde, peixeira, florista, camponesa, baiana, caçador, jardineiro... Uma evocação da Idade de Ouro. Dispostas em semi-círculo, de frente para o público, as pastorinhas se movimentam nos seus respectivos lugares - meio passo a frente, meio passo para trás - enquanto uma delas avança para o proscênio e canta a sua parte, com o que declara a sua identidade e solicita a companhia dos presentes na sua visita ao Messias recém-nascido. Culmina o espetáculo com a cena da Pastora Perdida ou Libertina, tentada por Satanás mas salva pelo Arcanjo Gabriel. Se, idealmente, as pastorinhas constituem um desfile - um grupo heterogêneo de fiéis em romaria a Belém - o pastoril de jornadas soltas reparte os seus figurantes em dois cordões, o azul e o encarnado, que entre si disputam ruidosamente a preferência do público, apaziguados nos seus exageros pela moderadora Diana, metade azul, metade encarnado. A ação, nas primeiras jornadas, acompanha o modelo dos bailes pastoris - Lusbel, num acampamento das vizinhanças de Belém, em vão se esforça por tentar as pastoras; mas a grande atração do espetáculo, sobretudo em Pernambuco, são as jornadas cômicas, em que o Velho, também chamado Bedegüeba, figura que corresponde ao Velho Pastor das pastorinhas e de outras representações populares, dialoga maliciosa e mesmo obscenamente com o público, arvorando-se a conquistador e galã. Ternos e ranchos de Reis - os primeiros constituídos de moças ou rapazes e trazendo nomes de flores, de astros e de pássaros, Bonina, Sol do Oriente, Arigofe, Cardeal, os segundos de composição mista quanto a sexo e idade, Rancho da Sereia, Rancho do Robalo, e carregando alegorias - celebravam a jornada do Magos, visitando presepes e casas de amigos na véspera dos Reis. Uns e outros têm a sua porta-estandarte, nos ternos protegida por uma guarda de honra feminina, nos ranchos acompanhada pelo mestre-sala, a abaná-la com o leque e a desenvolver em torno dela os passos mais extraordinários. Eram conhecidos, outrora, em Florianópolis e talvez no Rio Grande do Sul. Na Bahia, onde eram mais numerosos e de maior renome, como o famoso Terno de Arigofe, sofreram em eclipse por volta de 1930, mas oito ou dez deles já se apresentam de novo, com as suas pastoras e as suas ciganas a cantar e a dançar sob a vacilante luz das lanternas chinesas que pendem de grandes candelabros (cajados). A tradição das cantatas e tocatas
de Reis deu nascimento, na região centro-sul, a um desfile que não
apenas assinala, mas reproduz a viagem dos Magos. É a folia de Reis,
conhecida em Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Paraná, Rio de
Janeiro, Espírito Santo e, desde alguns anos, na Guanabara. No
interior, os foliões saem no Natal e cumprem a peregrinação durante
as doze noites, palmilhando incansavelmente as estradas, visitando
fazendas e casas de amigos, conhecidos e devotos, comendo e dormindo
onde podem; na Guanabara, e onde quer que os foliões tenham emprego
regular, a companhia sai apenas nos dias de folga, domingos e
feriados. Os grupos de penitentes têm a ligá-los a promessa
formal, com que pagam favores celestiais recebidos na cura de doenças,
de fazer a jornada durante sete anos. São poucos os seus
efetivos no ambiente rural, mas nas cidades se formam com um mínimo
de 12 homens, sob o comando do mestre (que organiza, custeia e
dirige a folia) e entoam cânticos de inspiração bíblica (profecias)
por ele compostos, segundo as suas leituras do Novo Testamento. Em
marcha, rodeiam ou acompanham a bandeira, o estandarte da
folia, um quadrado de madeira com a Adoração dos Magos ornada de
flores e de espelhos, carregado pelo alferes. São todos músicos
e cantores, violeiros, sanfoneiros, tocadores de triângulo, de caixa,
de bumbo. Ao lado dos foliões, que se movimentam em marcha
descansada, a dois de fundo, saracoteiam dois ou três palhaços,
a cara coberta por máscaras de peles de animais, o corpo metido em
camisolões ou lagartixas de cores vistosas, os pés nus, um porrete
nas mãos. Acrobatas e declamadores, representariam os soldados de
Herodes, perseguidos do Menino, e, em conseqüência, "têm parte
com Cão". Toda a companhia reinterpreta, nas estradas do
interior e nas calçadas urbanas, o Evangelho de São Mateus. |