A NOITE DE NATAL (Bahia)
As canções populares, apropriadas às festas e cerimônias da igreja, a
começar do século XIII, desenvolveram-se em esfera mais ampla e com
atitude mais autônoma.
Distanciando-se dos cantos puramente
litúrgicos, encontra-se todavia esse gênero de composições de caráter
religioso, a adaptação de sentimentos profanos; de sorte que o pensamento
profano e o pensamento religioso nelas se alternam, não apagando de todo,
porém, o relevo artístico de seu tipo de origem.
Poesia de
colaboração anônima, o seu valor é considerável como contribuição ao
estudo de frases poéticas e do ideal religioso, que, não há de negar, é a
atmosfera fisiológica da razão popular.
Os autos e cheganças da
noite de Natal remontam ao alvorecer da Idade Média, época em que os
natais – produções em versos destinadas a celebrar o nascimento de Jesus,
confundiam-se com as composições sagradas; e em que os trovadores e
menestréis, seguindo procissão solenes, os iam exibir nas lapinhas, em
visita ao Messias no presepe de Belém.
Então personagens, vestidos
de pastores e reis magos, dedilhando as cordas de seus instrumentos,
dançavam e cantavam as suas danças e canções, representavam os seus
mistérios diante do berço de palha do Messias das nações.
No meio
dessas cenas pitorescas, desses dramas infantis, a poesia imitativa tocava
ao seu apogeu, por isso que a grande nova emprestava no lirismo voz aos
animais, que expandiam as suas alegrias pelo nascimento do Deus
Menino.
Em seus louvores, o coro era uníssono, os tocadores de
cítara partiam nos arpejos cordas vibrantes, e os poetas entregavam-se ao
fervor piedoso de suas inocentes inspirações.
Mais tarde os bretões
adotaram esses usos, que se generalizaram na Europa, variando na forma,
mas conservando o fundo da tradição.
Tais costumes, até à primeira
metade deste século, refletiram seu caráter antigo na musa popular da
Espanha e de Portugal, passando-se deste último país para o Brasil com as
primitivas levas colonizadoras.
Essas noites de Natal
da nossa terra, que o vulto das invasões estrangeiras, descravando dos
horizontes a derradeira estrela, entenebrecerá em
breve, arquejam para morrer nas províncias do Norte, e os seus ecos, de
gerais que eram, apenas se fazem ouvir naqueles centros, felizmente
improfanados, ou nos céus da Bahia – o lar clássico das tradições
nacionais.
Aí, na Noite de Natal ainda é uma reminiscência que
consola, um sonho de quem adormece em sua pátria ao perfume inebriante e
selvagem das mangueiras em flor!...
Os sinos da freguesia repicam,
anunciando a missa; o terreiro alveja nos torços de cassa das mulatas e
crioulas chibantes; adros do Colégio,
de São Domingos e de São Francisco, apinhados de devotos, são os apriscos daquelas
ovelhas despertas.
Os tocadores de violão preludiam chulas e
toadas; os cantadores, que acompanham os concertistas ambulantes, cantam
quadras apropriadas, versos oportunos.
Os escravos de bons senhores
enchem espaços circunscritos das algazarras dos batuques, das matinadas do
canzás, das
dissonâncias atroadoras de seu
tabaques grosseiros.
Aqui e ali, uma porta range os gonzos e fecha-se:
são as famílias que, precedidas do chefe, encaminham-se às igrejas,
vagarosas, rusguentas,
intermináveis...
A cidade e os arrabaldes ostentam-se magníficos
pelo movimento que os anima, pelas músicas que se executam de várias
casas, pelos presepes floridos que se avistam de fora.
Como um
cadeia de prata, cujos elos partidos encontram-se nos ares, assim são os
tinidos trêmulos dos pandeiros; como vibrações de uma gargalhada
convulsiva, que cresce e decresce para recomeçar após assim, são os
estalos gradativos das castanholas.
Os bailes pastoris, que
desenham com mais firmeza os traços fisionômicos da noite de Natal na
Bahia, executam-se nas habitações remediadas e pobres, e nos palácios
dourados da opulência.
É que nesta noite a sorte
difunde igualmente os seus risos pela trilha afanosa do proletariado e
pelas alamedas em que a fortuna espalha seus bens!
Através das
grades de pau dos postigos
esburacados, os clarões que coam, parecem crisálidas de outro, de onde se
desatam melodias que voam...
Os bordões argênteos dos violões,
contrastando com os dedos negros dos tocadores crioulos; as pastoras
bronzeadas e da cor do ébano, dançando e cantando e dialogando em frente
de um presepe de galhos de pitanga; aquelas mulheres de turbantes
vistosos, adornadas de colares, braceletes e pedrarias, deleitam e
transportam melhor a imaginação às regiões do Oriente, à pátria do
sol.
Dir-se-á que aqueles bustos fundidos de trevas e de
crepúsculos morenos, fizeram parte da comitiva dos reis de Sabá, da Pérsia
e da Babilônia à mensagem de Belém; que aqueles clamores, erguidos por um
povo de raças diversas, nada mais eram do que o eco enfraquecido, por
quase dois mil anos, do rumor das caravanas dos magos com o seu séquito de
reis vencidos, odaliscas e cativos, com seus camelos que se ajoelhavam ao
peso das resinas e do ouro e dos diademas de cem dinastias, para ofertarem
ao Deus Nascido – Àquele que tinha que fazer desaparecer os brilhos das
noites do Oriente e levantar em esplendores as manhãs frias e orvalhadas
do Ocidente!
Na solene noite, os bailados mais ou menos ricos, os
presepes mais ou menos característicos, falam ao ideal das classes
diferenciadas, as trovas incultas são descantadas, os autos inéditos
desempenham-se à porfia, e a Missa do Galo constitui o objetivo de algumas famílias que se retraem que observam os
ritos do Natal.
A partir das oito horas, nas casa de tratamentos,
as polcas e valsas estuam nos salões;
as luzes profusas dardejam raios de âmbar; as encantadoras baianas
deslubram, girando nas danças elegantes, e os repentistas laureados glosam motes aos aplausos
justíssimos.
Em quadra mais remota, esses grandes mestres de toda a
poesia do improviso chamavam-se Moniz Barreto, doutor Sinfrônio O. Álvares
Coelho, Laurindo Rabelo, A. de Mendonça, João Freitas, doutor Luís Álvares
dos Santos e tantos outros eram os poetas da religião, da pátria e da
família...
... No salão repleto de rosas e fantasias, alentados ao
sopro do cantos dos dias nacionais, o presepe alteia-se majestoso, com
suas arcadas vegetais e aromáticas, seu horizonte largo e azul, sua lua
transparente e sua estrela legendária.
Adiante de uma paisagem sem
arte, de arvoredos de pinho pintado, fileiras de casinhas brancas
estendem-se, confinando com duas fortificações encimadas por tropas
francesas, guarnecidas de peças de artilharia, tendo os ângulos
atiradores, que disparam espingardas ou calam as baionetas.
As ruas são na generalidade pouco populosas, a menos que
algumas figuras, fornecidas pela quinquilharia francesa e alemã, se lobriguem
salteadas, mais vulgarmente zuavos e mouros.
O chão é sulcado de
pastagens e espelhos fingindo lagos; sobre esse lago patinhos e peixes de
vidro, cordeirinhos e cabras, tudo sem nexo, disparatado.
À direita
estão São José e a Virgem, que apresenta o Menino aos três reis magos,
seguidos dos aldeões e lavadeiras com trouxas de roupa à cabeça, e de
pastores tocando gaitas e sanfonas.
Pequenos lampiões de gás,
repuxos e faróis e moinhos de vento, completam a vista geral dessa cidade,
onde a imaginação pouco exigente dos festeiros coloca o berço de
Jesus.
De instante em instante, os convidados que dançaram e os
convidados que chegam, aproximam-se; dos que entram, alguns suspendem às
folhagens, que se abraçam no ápice, formando o pórtico do presepe, flores
nativas, frutos sazonados, ou depõem na superfície plana dádivas de
primor.
De repente um arrufar de pandeiros e adufes,
um estalar ardente de castanholas, um planger de violões e guitarras, um
respirar macio de flautas, caem como uma vaga no feérico recinto,
envolvendo um ânimo predisposto da assembléia.
Os circunstantes,
afastando-se para os lados, deixam um claro à passagem dos figurantes dos
bailes pastoris – dramas que, que apesar de não serem feitos por poetas de
profissão, conservam-se, com a sua melodia musical, nos arquivos orais do
povo baiano, por isso que exprimem crenças e sentimentos que
primitivamente o embalaram.
Sem aviso prévio, como saber-se quantos
se representaram e suas denominações?
Será o baile da Liberdade, o
do Filho Pródigo o de Um Marujo, o da Lavadeira, o de Cupido, o de Oito
Pastores e um Guia?
Será um ou mais, visto como podem executar-se
até três, elevando-se o seu número a cinquenta, com certeza, todos sobre
motivos diferentes, músicas especiais, protagonistas distintos?
E a
flauta, preludiando acordes conhecidos, dá sinal de entrada ao baile das
Quatro Partes do Mundo.
Neste auto, como em todos os outros de que
temos notícia, o ritmo assemelha-se ao dos salmos e cânticos da liturgia
romana, pela maneira porque a expressão faz ressaltar as palavras,
notando-se deveras a entoação e disposição melódicas apropriadas aos
textos.
E os pandeiros tinem... As moças vestidas de branco,
chegam-se mais perto; os que conversavam às janelas voltam-se rápidos, e,
de costas para a rua, encruzam os braços, traçam a perna, atentos,
calados.
Nas praças e nas ruas a multidão passeia tumultuária: nas
asas daquele burburinho daqueles tropéis nas calçadas, o grito imitativo
do canto do galo sobe e esvai-se, no meio de algazarras insensatas, de
tumultos efêmeros.
E os pandeiros arrufam, e a orquestra ensaiada
dos bailes é mais estridente...
À guisa do prólogo, como preparo do
drama, a Europa vai começar a peça.
Fantasiada com esmero,
sacudindo a poeira da alvorada de seus cabelos louros, parecendo não ter
mais de onze anos, uma menina, em terceiro passo de dança, aparece
quebrando alternativamente os flancos, inclina-se diante do Menino Jesus,
desviando-se após, bailando, cantando:
Eu venho adorar
contente
Ao Menino Deus nascido,
Sacrificar o meu peito
Aos seus
amores rendidos.
E virando-se para o presepe e para o auditório,
declama graciosa a loa obrigatória:
Europa toda vos rende
As
grandezas que em si tem,
Pois só a vós reconhece
Ser um Deus e Sumo
Bem.
Respeitando as rubricas, tendo vestiduras características,
corretamente ensaiados os cantos que precedem à recitação da loas,
apresentam-se sucessivamente a África, a Ásia, a América que aos triunfos
espontâneos, cantam e declamam:
África:
Como senhora do universo
Vos tributo humilhação,
As potências de
minha alma
De todo o meu coração
Loa:
África, terror do
mundo,
Soberba e vangloriosa
Para adorar ao Messias
É humilde, é
amorosa.
América:
Com profunda adoração
Adorar venho ao
Messias
Filho do Eterno Padre
E da bendita
Maria
Loa:
As belas preciosidades
Que em si a América
cria,
Todas vos entrego, Senhor,
Com grandeza e
bizarria.
Ásia:
Com humilde reverência
Os pés, te venho
beijar,
A minha alma e o meu corpo
Nas tuas mãos
entregar.
Loa:
Ásia fiel te oferece
Todos
os seus cabedais
E maior
oferta faria
Se possuísse inda mais.
Depois desta loa,
empenha-se um debate entre as Quatro partes do mundo, que
disputam entre si preferências de lugar, de força, de antigüidade,
sabedoria e riqueza, no acolhimento de suas oblações à
embaixada de Belém.
Esse dialógo é de uma simplicidade tocante, de
uma religiosidade que faz reviver as flores das crenças mortas da
infância, que mirraram-se ao entardecer da vida.
As luzes tremem
nas vestimentas de penas e veludo, nas pulseiras e nas lantejoulas que
faiscam...
A melopéia inicia-se
agradável, pouco variada, sem estilos corretos...
Ao ouvir-se as
notas dessa música monótona e um tanto solene, essa acentuação de quem tem
na garganta o gorjeio de todas as
aves, a modo que se sonha, ao balanço quieto da rede, às margens de algum
rio das nossas floresta virgens!
Os assistentes nem falam:
compenetrados da cena que se desenrola esplêndida parece que contemplam
absortos o frontispício cromático da epopéia da Redenção.
O dono da
casa, com sua roupa de brim branco e gravata encarnada, e a senhora com
seu vestido de musselina, lencinho de seda ao pescoço, obsequiosa, folgazã
e boa, procuram a companhia das moças e pessoas mais velhas, com as quais
distribuem finezas em abundância.
As crias de estimação e as
mucamas postam-se nos corredores; emoldurados nos caixilhos da alcova
fechada, arregalando uns olhos pasmados, comprimindo o nariz chato e a
boca vermelha contra o vidro que embaciam com o hálito, os moleques e as
negrinhas espiam o espetáculo e somem-se, avistando o senhor.
Quase
meia noite, os sinos repicam a miúdo, as igrejas abrem-se aos fiéis, a
Missa do Galo não tarda no altar...
O povo tumultua...Na varanda, o
barulho dos pratos denuncia os preparativos da lauta ceia.
O drama
das Quatros Partes do Mundo tende à catástrofe. A Ásia, a África
e a América não se conciliando, intervém num árbitro para decidir do
pleito.
E um personagem de longa túnica cinzenta, decrépito,
empunhando uma foice, encaminha-se lento e alquebrado para a cena: - É o
tempo.
Seu gesto é grave e a sua palavra enérgica.
O tempo
(falando):
Naquele ponto escondido
Estive ouvindo o vosso
enfado,
Ásia tem muita razão
No seu falar apressado.
Europa,
América e África:
Quem és tu, meu velho honrado,
Que tanto a
Ásia defendes?
Tempo:
Sou o Tempo estragador
Creio que
agora me entendes.
Ásia:
O que for de vosso gosto
Sujeito
à nossa vontade;
Pronto estamos, haja, pois:
União e
amizade.
Todos:
Agora formemos baile
Das
quatro partes do mundo
Tempo:
Eu, alacaiando a
ele,
Serei o tempo jocundo.
Todos:
Com prazer, com
alegria,
Todos com voz sonora,
Tributem hinos a Jesus,
E à Virgem
Nossa Senhora.
Tempo (cantando):
Eu, como o Tempo que
sou,
Me prostro mais reverente;
Pois nasceste neste mundo
Para
salvação da gente.
Todos (cantando e dançando):
Reconheço a
vós
Um Deus nas alturas,
Senhor do Universo
E das
criaturas.
E um estrondo de palmas faz estremecer o
salão...e uma chuva de flores, como um banho de perfumes, desaba sobre os
atores, inundando o palco, que se transforma em um tapete iriado e de
vaporosos aromas.
Esgotado o intervalo de uma hora, em que a sala
esvazia-se, porque a ceia estava servida, a ouvertura do baile das
Lavadeiras convida os espectadores do auto anterior para esta segunda
representação.
E correm o recinto deixado, que se modificara com
acessórios multiplos: montanhas, a horta de Benta, etc...
As
pastoras ajustam vestuários bonitos e singelos, flutuam-lhes ao chapéu de
palha fitas estreitas e de colorido vivíssimo; nos arregaços da saia curta
pequenos topes de flores
vicejam mimosos; do braço de cada uma pende uma cestinha com as oferendas
ao Menino.
Os pastores, com trajes no mesmo gosto, agitam nodosos
cajados, à voz da primeira lavadeira, que descansando num cepo, arriando
uma gamelinha de roupa, modula suave, ao tom dos violões transportados, o
verso de introdução:
Antes que o sol saia
Hei de madrugar,
Nas margens do rio
Onde eu vou lavar.
Terminado o
baile, uma nuvem de pássaros, como um bando de ciganos, emigrava, às
opalescências da madrugada.
E os pastores e lavadeiras, tocando em
retirada, com as suas dádivas e seus louvores, a harmonia ritmadas,
cantavam, desaparecendo:
A barra do dia
Já vem
clareando...
Que belo Menino
Na Lapa chorando...
E nos braços
dessas cantilenas adormecera por mais um ano a noite de Natal da minha
terra – o lar clássico do individualismo pátrio e das tradições
nacionais!
(MORAES FILHO Mello. Festas e
Tradições Populares do Brasil)