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O SACI - Um duende brasileiro

 

Profº Robson A. Santos - Folclorista

Antes de começarmos, cabe distinguir os duendes dos gnomos, muitas vezes confundidos por muitos estudiosos.
 A diferença entre os dois seres, elementais da terra, refere-se à sua classificação. Os gnomos designam diversos espíritos da natureza, do elemento terra. Geralmente são vistos conforme as características das vestes do gnomo europeu e de barbas. Os duendes são seres pequenos, de orelhas pontudas, brincalhões, espertos, cuidam da relva, dos arbustos, também do reino vegetal e mineral.
      
O papel dos elementais é manter o equilíbrio ecológico. As Salamandras, elementais do fogo, controlam os incêndios. O Saci, duende, elemental da terra, cuida para evitar a depredação e as matanças desordenadas de animais. A Iara, elemental da água, cuida dos rios e lagos. As fadas, presentes em relatos e contos de encantamento, são os elementais do ar, com menor incidência em relatos acerca de seu papel ecológico.Dentre os elementais brasileiros, presentes em nosso folclore, estaremos estudando um pouco mais o Saci-pererê, um duende brasileiro.
       O Saci-pererê é sem dúvida um dos seres dos mundos invisíveis mais populares do Brasil. De todos é provavelmente o que conseguiu se manter mais nitidamente como uma entidade benevolente, quando muito um tanto brincalhona, mas inofensiva.
   Monteiro Lobato em seu livro "O Saci" foi responsável pela popularização desse duende travesso. Em suas histórias, Lobato conta que os sacis nascem em "sacizeiros", taquaruçus que ficam na parte mais espessa das florestas. Ficam sete anos dentro dos gomos antes de poderem sair, e depois vivem no mundo por 77 anos. Depois, viram cogumelos venenosos ou orelhas-de-pau. Nos taquaruçus eles se escondem durante o dia, já que o sol é seu maior inimigo. Segundo as próprias palavras do saci para Pedrinho, no livro de Lobato, eles não precisam aprender nada, pois já nascem sabendo tudo o que precisam. Às vezes são apresentados como possuindo furos no centro da palma das mãos.


O SACI PERERÊ

Quando pesquisamos alguns relatos de pesquisa do Brasil colonial, não nos deparamos com a descrição do saci-pererê da mesma forma que ele foi registrado por grandes autores e no sul do país.
O saci tem, no entanto, um domínio vasto. Está em todo o sul do Brasil e nas repúblicas vizinha. ë uma entidade real no folclore mas sem vestígios no fabulário antigo.
No "inquérito" realizado por Monteiro Lobato, muito foi falado sobre o saci na figura do duende fantástico que todos nós conhecemos.
Nós conhecemos, no entanto, a figura do duende com carapuça vermelha e de uma perna só e a figura de uma ave, ambos chamados de saci. O nome pertence a quem ? Esse estudo tem o intuito de apresentar algumas teorias sobre esse ser fantástico.

O SACI-AVE

Saci - Tapera naevia. Também chamado Sem-Fim.
Etym. h-ã (h-ang) cy = o que é mãe das almas. (Segundo relatos, chupa a alma dos defuntos)
Para alguns, esse mito é onomatopaico. A superstição popular faz dessa ave uma espécie de demônio, que pratica malefícios pelas estradas enganando os viandantes com as notas de seu canto e fazendo-os perder o rumo.
Dentre os relatos do saci-ave, vemos aparecer várias espécies de pássaros com as mesmas características. Dentre os dados coletados podemos citar a Tapera naevia (Peitica / Sem-Fim - NE); o Cuculus cayanus (Mati-taperê ou Matinta-Perera). Alguns dizem que a famosa Mati-taperê ou Matinta-Perera é a própria Tapera naevia que tem, no Amazonas, o pseudônimo de "Fem-Fem", possivelmente o "Vem-Vem" do Nordeste. A Marrequita de Brejo, ou Curutié ( Sinallaxis cinnamomea ) é outro saci. O "Alma de Caboclo" ( Diplopterus naevius ) é dado como sendo o saci. É o mesmo Piaya cayana, de Linneu que, ensina Snethagle, tem mais três sinônimos: o Xicoã, a "Alma de Gato" e o Ating-aí. É ainda o Cuculus cornutus, o Ticoã ou Tincoâ, Pássaro-feiticeiro, Pássaro-pajé, uira-pajé. Guarda ele o espírito dos mortos, "chupa a alma dos defuntos". O saci estende como um pássaro, seus feitos desde a Argentina até o México.
Localizar o saci num pássaro é tão difícil quanto a identificação do Uirapuru, a ave suprema do Amazonas, égide suprema, cheia de mistérios, reunindo derredor de si todos os pássaros seduzidos pelo seu canto irresistível.
O que dizem os ornitologistas é a facilidade do Saci enganar pelo canto. Nunca se sabe onde realmente ele esteja. Seu assobio é antes um elemento desnorteante que de direção segura.

Saci
- casta de pequena coruja, que deve o nome ao grito que faz ouvir repetidamente durante a noite. É pássaro agourante. Contam que é a alma de um pajé, que não satisfeito de fazer mal quando deste mundo, mudado em coruja vai à noite agourando aos que lhe caem em desagrado, e que anuncia desgraças a quantos o ouvem. O nome de saci é espalhado do Amazonas ao Rio Grande do Sul. O mito, porém, já não é o mesmo. No Rio Grande é um menino de uma perna só que se diverte em atormentar à noite os viajantes, procurando fazer-lhes perder o caminho. Em São Paulo é um negrinho que traz um boné vermelho na cabeça e freqüenta os brejos, divertindo-se em fazer aos cavaleiros que por aí andam toda a sorte de diabruras, até que reconhecendo-o o cavaleiro não o enxota, chamando-o pelo nome, porque então foge dando uma grande gargalhada. ( Stradelli - Vocabulário Nheengatu-português ).

SACI PERERÊ E MATINTA-PEREIRA

Mas se o saci, ausente dos velhos cronistas do Brasil Colonial, não se faz notar no fabulário do norte brasileiro, fatalmente terá seu substituto. Barbosa Rodrigues escreve no Poranduba Amazonense.

... no Sul é Saci tapereré, no centro Caipora e no Norte Maty-taperê.

O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, Siriri, Matim-taperê, e até já lhe deu um nome português o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome "da Silva" ou "da Mata". Para conseguir seus fins, e fazer suas proezas, sem ser visto, quase sempre vive o Saci ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, ora graves ora agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso, porque, quando procura vê-lo pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim iludido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal.

O SACI-PERERÊ - FOLCLORE

Dentre os mitos , o saci foi sempre o que mais me encantou; o ser mágico que podia sumir, virar pé-de-vento (redemoinho). O saci nasce e vive nos bambuzais mas, não se pode olhar no oco do bambu para vê-lo pois ele pode soprar a brasa do seu pito no olho e cegar o curioso.
Em nosso folclore , o saci é um negrinho de uma perna só que usa um gorro vermelho e fuma no pito. À noite , o saci cavalga, dando nós e trançando a crina dos cavalos , que sob ele relincham o galopam desabaladamente no pasto.
Segundo Câmara Cascudo, o uso do fumo é bem brasileiro. O Yací Yaterê paraguaio, uruguaio, argentino, não pede fumo e sim fogo ou alimentos.
Dentre os estudos , encontramos várias versões para o saci e ainda, registros sobre o saci-ave.
Existem três espécies de saci: trique , saçurá e o pererê . O saci-trique emite um ruído característico ( "Trique"); o saçura é um negrinho de olhos vermelhos e o saci-pererê é o mais comum e corresponde às descrições por nós conhecidas.
Segundo as superstições, quando se perde algum objeto, pega-se uma palha e dá-se três nós, pois se está amarrando o "pinto" (pênis) do saci. Enquanto ele não achar o objeto desfaz os nós. Ele logo faz a gente encontrar o que perdeu porque fica com vontade de mijar. (Informação de Amaro de Oliveira Monteiro - São Luís de Paraitinga).
O saci-ave é um pássaro que tem a capacidade de imitar o canto das outras aves confundindo as pessoas e impedindo-as de saber onde ele se encontra. Na tradição indígena, o saci era um mito ornitológico, na forma de um pássaro encantado conhecido por Martim Tapirera. Mais tarde, no sul da Amazonas, ele adquiriu a forma de um menino de uma perna só, fumante inveterado e, como todos os meninos do mundo, praticante de mil travessuras. Com esta figura o saci irradiou-se para todo o Brasil, onde é conhecido por vários outros nomes com os de Martim-Tapirê, Martim-Pereira ou Saci-Cererê. Quando os portugueses vieram ao Brasil, a fama desse mito era grande e ele acabou sendo adotado nas crenças e superstições dos colonizadores, os quais adicionaram um barrete vermelho, tornando-o, também, um negrinho.

O SACI E SUAS CONVERGÊNCIAS PELO MUNDO

Em Portugal o Fradinho da Mão Furada e o Pesadelo têm coberturas idênticas. O Saci brasileiro tem a mão furada com o símile português.
"O Fradinho da Mão Furada entra por alta noite nas alcovas, e pelo buraco da fechadura da porta. Tem na cabeça um barrete encarnado, escarrancha-se à vontade em cima das pessoas e a ele são atribuídos os grandes pesadelos. Só quando a pessoa acorda, é que ele vai embora... O pesadelo é o Diabo que vem com uma carapuça e com uma mão muito pesada. Quando a gente dorme com a barriga para o ar, o pesadelo põe a mão no peito de dorme e não deixa gritar. Se alguém lhe pudesse agarrar na carapaça, ele fugia para o telhado, e era obrigado a dar quando dinheiro lhe pedissem, enquanto não lhe restituíssem a carapuça." (Tradições Populares de Portugal)..
O Pretinho do Barrete Encarnado, possível convergência, costuma aparecer à hora da maior calma; entidade graciosa, fazendo figas e pirraças às crianças para as enraivecer.
Ainda em Portugal encontram-se registros de "um molequinho de bota vermelha", extremamente vivo, irrequieto e malicioso.
No Paraguai encontramos o Yacy-Yaterê que é um homenzinho de cabelos dourados, com as duas pernas, que aparece na hora da "sesta" quando as crianças deveriam estar em casa. Tinha o ofício de fazer se perder as pessoas para levá-las à seu irmão Aó-Aó que era canibal. Ambrosetti informa que o Yacy-Yaterê rapta também as moças e as leva para os montes. O filho desses amores será Yacy-Yaterê também.
O Kobolde é uma espécie de saci alemão, de Curilo da Bretanha, diabinho irrequieto, buliçoso, agitado, atrapalhador do sossego doméstico nas residências onde ele se fixa. Quando é agradado pelos donos da casa, ajuda-os, mas zanga-se com facilidade tornando um inferno essa habitação. Quebra os pratos, queima a comida, abre as torneiras, suja as gavetas de roupa, emporcalha as salas, faz cair, nas horas de servir à mesa, os criados. E o Kobolde ri, deliciado, como o Saci paulista ou mineiro.
Um característica do Saci é ter uma perna só e agilidade surpreendente. Era um elemento que anunciava o velho Ciapodo, Também unípede e velocíssimo. Diziam que o Ciapodo (Skia-podos, sombra-pé) tinha um pé alargado e tão amplo que deitado de costas e erguida a extremidade contra a luz, adormecia à sombra.
Embora com várias convergências com os demais mitos do imaginário popular internacional, o Saci constitui-se um mito pertencente ao imaginário popular brasileiro com características únicas, produto do processo de aculturação o qual passou nosso povo. O Saci, embora com ramificações e elementos culturais internacionais é um mito bem brasileiro pois não podemos nos esquecer da influência das crendices e superstições de nosso povo.

O BARRETE DO SACI

Um traço característico entre todos os estudos feitos sobre o saci é sem dúvida a presença da carapuça vermelha. Essa carapuça é encantada,, faz o saci ficar invisível e todas as suas "forças" vêm dessa carapuça.
A carapuça do saci é o chamado "Pileus Romano". O pileus era uma carapuça de forma oblonga, de cor vermelha. Era o legítimo e mais tradicional símbolo popular de liberdade. E a origem do barrete frígio, tornando posteriormente a imagem da liberdade individual e coletiva, materialização do governo republicano. O Pileus posto na cabeça de um escravo era a libertação. Para o saci, o pileus significaria que ele é livre para importunar a paciência alheia ligado a idéia de encantamento, da força misteriosa dos talismãs. Converge ainda a cor vermelha, sugestionadora e com séculos de significação sagrada.

DUENDE DE UMA PERNA SÓ

Várias tradições sul-americanas apresentam o saci com uma perna só. Seria aleijado o nosso saci ? Comparando com outros mitos de outros povos, encontramos a presença de vários seres unípedes e poderosos do continente. Os Maias da Guatemala (Quiches) tinham o deus Hunrakan e os antigos mexicanos veneravam Tezcatlipoca, ambos com uma perna só. Os dois seriam para Lehmann-Nitsche representados pela constelação de Ursa Maior, origem astral de nosso mito. Crêem que os negros hajam contribuído para a formação atual do Saci, enrolando-o com as semelhanças o Gunucô, fantasma protetor das matas. Mas Gunucô lembra, e muito vagamente, o Curupira. É o responsável, em percentagem séria, pelas aparições noturnas que crescem e minguam o tamanho, surgindo como crianças e como gigantes. Demais, Gunucô é um negro com ambas as pernas, sólidas e velozes.
A perna única do Saci Pererê, de cuja ausência parece lamentar-se muito raramente, é recordação clássica do fabulário europeu, dos seres estranhos como Ciapodos e Trolls.

 

 

BIBLIOGRAFIA

Site ABrasOFFA – http://www.abrasoffa.org.br

CASCUDO, Luís da Câmara - Superstição no Brasil 1985 - Ed. Itatiaia - Ed. da Universidade de São Paulo - SP

CASCUDO, Luís da Câmara - Geografia dos Mitos Brasileiros 1976 - 2ª Edição - Livraria José Olympio Editora - RJ

SCHOEREDER, Gilberto - Fadas, Duendes e Gnomos - O Mundo Invisível 2ª Edição - Ed. Hemus - SP

MAGALHÃES, Cristina - O Encontro com os Elementais 1994 - 4ª Edição - Ed. Objetiva - RJ

Revista Lendas e Fantasias nº 1 - Gnomos e Duendes Ed. Pen - SP

Planeta Especial - Gnomos, Fadas e Duendes Ed. Três - SP

ALVES, Maria Alzira Pereira - Apostila Os Quatro Elementos da Natureza